Fatinha

A Hidra de Hércules

In humor on 25/07/2025 at 7:47 PM

Querido Brógui,

A Hidra é um ser da mitologia grega que tem o corpo de mulher e sete cabeças em forma de serpente e foi criada por Hera, que vem a ser a esposa de Zeus, para derrotar Hércules, que é filho de Zeus com uma mortal. Babado Olímpico.

Só essa introdução renderia um milhão de divergências e convergências e digressões e análises. Como não tenho a menor intenção de fazer uma monografia sobre os mitos gregos, fiz esse resuminho pra você se situar. Se ficara curioso, dá uma pesquisada rápida – depois de me ler, obviamente. Há um monte de versões, mas é basicamente isso aê. Vou usar, com a permissão dos deuses gregos, os personagens Hidra e Hércules para explicar qual é a minha versão sobre nós, pobres humanos mortais, tentando resolver os problemas, que são imortais.

Então, minha tese é de que, a cada solução encontrada, surge, como consequência, pelo menos um novo problema a ser resolvido.

Os problemas são como a Hidra, imortais. Não são derrotados nunca. o máximo que se pode conseguir é cortar uma cabeça e ficar esperando nascer a outra no lugar.

Então, eu corto uma cabeça e lá vem mais outra e mais outra e mais outra. E sigo cortando cabeças até conseguir executar o trabalho hercúleo.

Vou dar um exemplo.

O Brógui aqui resolveu fazer uma pequena obra na casa, para a modernização da infraestrutura e um leve aformoseamento. Trocando em miúdos, uma puta de uma quebradeira do caralho, para trocar toda a fiação desencapada, tubulação de ferro enferrujada, gás instalado dentro dos banheiros, mudança de layout da porra toda pra ficar do meu jeitinho. Confesso que não dimensionei adequadamente o tanto que teria que fazer. Subestimei a faina e agora, tô atolada até o último cachinho grisalho em problemas e soluções.

Algumas coisas eu optei por preservar. Por uma questão histórica, afetiva, ou simplesmente porque são peças belíssimas que acho criminoso jogar no lixo. Como as portas de entrada. Quis conservar três portas maravilhosas, monstruosamente grandes, lindas, maciças, trabalhadas e pesadas. Um dos carros-chefe da minha Casinha de Boneca.

Só que, eu só vou precisar de duas. Problema 1: não quero botar fora a terceira. Solução: uso duas juntas nos fundos, como porta de correr e a terceira fica na frente. Resolvido? Claro que não.

Problema 2: duas portas são do mesmo tamanho e a terceira, sabe-se lá Deus porque, Papai mandou cortar. Então tenho duas monstras e uma filhotinha. Solução: tiro a da frente, coloco na cozinha com a sua irmã gêmea e coloco a menor na frente. Resolvido? Claro que não.

Problema 3: tenho um vão de dois metros e setenta por noventa centímetros pra enfiar uma porta que tem dois e quarenta por setenta. Ops! O defunto era maior! Solução: fazer um portal que sirva para preencher o tanto que falta de porta pra caber no buraco, porque ficar com uma portinha magrela ali na frente mata a imponência das dimensões da Casinha. Resolvido? Claro que não.

Problema 4: achar um carpinteiro pra fazer essa adaptação. Solução: ainda não há porque ainda não encontrei um cidadão capacitado para executar a missão.

Então, no momento, o placar é: Hidra 4, Hércules 3. Tô perdendo. Mas tenho certeza de que Zeus vai me ajudar.

Definições

In humor on 11/04/2024 at 1:56 PM

Querido Brógui,

Uma das Coroas de Cristo que ornam os pitocos da calçada foi abduzida na calada da noite. Alienígenas? Eu quero acreditar. Mas não acredito. O acontecido não chegou a ser uma surpresa, visto que, desde que fiz o plantio, essa mudinha não ficou muito firme, tadinha. Não deve ter sido tão difícil subtraí-la.

Espero, com todas as forças da minha maldade, que o autor do fato tenha perdido muito sangue nos espinhos da plantinha. Espero também, com todas as forças da minha bondade, que ela seja bem cuidada , cresça e dê muitas flores.

Quando vi a cena do crime, suspirei e, tranquilamente, fui pegar minhas luvas, minha pazinha e a outra muda – que eu, espertamente havia deixado como possível suplente. Nesse ínterim, imergi em minhas reflexões metafóricas.

O que essa minha atitude de plantar mudinhas na calçada, mesmo sendo advertida por milhões de pessoas acerca da possiblidade-quase-certeza de que elas corriam o risco de serem furtadas, diz sobre minha pessoa?

Insistir em fazer o plantio, não obstante os olhares consternados do tipo “tadinha, inocente”. Seria teimosia, cabeça-durice, obstinação, firmeza, resiliência ou puramente uma burrice siderúrgica (como diria João Saldanha)? Dedicada ao tal do “conhece-te a ti mesmo” socrático, antes de escrever esse post, pesquisei arduamente sobre o assunto.

Essa imagem aí me cativou. Às vezes empaco mesmo. Entretanto, desde que que a teima não se transforme em idiotice patológica, como acontece com aqueles que não dão o braço a torcer ainda que a realidade caia como um bloco de concreto na sua cabeça, até que a teimosia é uma boa arma para a sobrevivência – ou para as conquistas. É uma característica não de todo negativa, pois é pertinente a quem não desiste facilmente.

Sobre obstinação, encontrei essa frase, atribuída ao genial Chaplin. Se foi ele mesmo quem disse isso, não tive saco de investigar, mas isso depois você faz. Google tá aí pra isso. Se Chaplin foi obstinado, então deve ser legal ser assim: persistente, insistente, ter convicção.

Quanto a ser cabeça-dura, não encontrei referências muito elogiosas sobre. Primeiro porque a cabeça-durice é associada à dificuldade de compreensão ou de aprendizagem o que, no mais das vezes, não é o meu caso. Reconheço que apanho para entender aqueles desenhos que ensinam passo a passo a montagem de um objeto. Também não sei exatamente como abstrair a física quântica – embora já tenha lido sobre o assunto. Apesar, disso, recuso-me a me auto encaixotar nessa categoria, na qual me parece que a pessoa se agarra a uma verdade particular e, como diria Mamãe, acaba por se tornar o único soldado com o passo certo no batalhão.

Cheguei então à resiliência, que me parece um termo chique para nomear aquele que enverga mas não quebra, aquele sobrevivente porque é adaptável às mudanças. É um ser resistente, maleável, flexível, que supera as adversidades. Na Física, é a propriedade que alguns corpos possuem para retornar à sua forma original depois de deformados. É. Bacana essa parada de resiliência.

Pois é. Exercitarei meu seja-lá-qual-for-o-adjetivo e replantarei as Coroas de Cristo, enquanto isso não me incomodar. Quando isso acontecer e eu me emputecer, meto um Cacto Bola, também conhecido como Cadeira de Sogra e aí eu quero ver neguinho meter a mão.

Relendo-me, reescrevendo-me, redivertindo-me

In humor on 10/04/2024 at 10:22 PM

Querido Brógui

Não falta inspiração, nem disposição. Apenas resolvi ler o conteúdo do Querido Brógui, só pra conferir se eu era tão engraçadinha como sou agora. Sou. Dei uma burilada no vocabulário, liberei os palavrões e não cito mais os nomes nos textos.

Decidi que seria bacana republicar, devidamente editados e melhorados, posts antigos. Aliás, foi phodda me auto editar a mim mesma. Acho que além de me reler, eu me reescrevi.

Acho que os Bróguis que me acompanhar desde sempre vão se redivertir – adoro criar neologismos – e os recém convertidos vão saber que essa nobre pessoa que aqui escreve sempre foi meio mais ou menos capaz de rir até de fratura exposta.

Então, segue aí uma pérola, escrita depois de um almoço com uma amiga – que é minha irmã até hoje. Há quem se orgulhe de acumular dinheiro. Eu me orgulho de acumular amigos, que continuam a ser meus amigos, apesar de me conhecerem muito bem.

Há muito tempo que não dou tantas gargalhadas como ontem, na hora do almoço. Sabe aquelas minhas gargalhadas altas, padrão “comunidade”?

Fui comer sushi em um restaurante era rodízio. Na boa? Rodízio é para os fortes e que tem estômago dilatado. Sou fraca e como muito pouco. Então, como aprendi, rodízio não dá pra mim.

No breve lapso de tempo em que fui ao banheiro, Bobinha começou a fazer o pedido. Acho que estava com muito apetite – maneira gentil de dizer que devia estar roxa de fome – pois mandou ver. Beleza.

Quando começou a chegar a comida, vi que era o suficiente para alimentar uma dúzia de estivadores (se é que um estivador comeria peixe cru). Arregalei os olhos e disse que a gente não ia conseguir dar conta daquilo tudo. Perguntei se tinha alguma multa, algum castigo físico se a gente deixasse comida no prato. Bobinha garantiu que não. E eu acreditei.

Iniciamos os trabalhos. Comemos, comemos, comemos… A quantidade de comida era infinita. Lá pelas tantas, começou a sair sashimi pelas nossas orelhas. Ainda restavam mais de trinta peças para serem comidas, fora os espetinhos, o nirá, o rolinho-primavera e outros acepipes.

Minha Brógui olho-grande-maior-que-a-barriga então, muito sem-graça, me comunicou que teríamos que pagar pelas sobras. Comecei a rir. Desespero? Não. É muito engraçado mesmo a gente ser obrigada a comer – principalmente depois que ultrapassamos a infância. Mais engraçado ainda é ir a um restaurante e pagar pelo que comeu e pelo que não comeu. ok. É pra evitar o desperdício e coisa e tal, mas não deixa de ser bizarro.

O efeito desse comunicado foi desastroso. Além de eu começar a rir compulsivamente, o que dificulta um pouco a ingestão de qualquer alimento, meu estômago já lotado até a boca ficou com câimbras. Somado a isto, a impressão que tive foi que a comida crescia na boca e se multiplicava no prato.

Fui até a área externa dar uma caminhada pra ver se a comida se acomodava pra caber mais. Tipo motorista de ônibus que dá aquela freada pra entrar mais gente.

Quando voltei, ainda com a última peça de sushi entalada no esôfago, sugeri que começássemos naquele instante a praticar a bulimia. Sabe? Abrir espaço para comer mais. Minha sugestão não foi acolhida. Respirei fundo, comi mais uma ou duas peças e comecei a rir de novo. Dessa vez foi de nervoso mesmo.

Então, reparei que um milagre estava acontecendo diante dos meus olhos. Nenhuma de nós comia, mas as travessas estavam ficando mais vazias. Olhei para Bobinha e ela, vermelha, desviou o olhar. Bróguis! Ela tava tacando a comida dentro da bolsa! Numa versão tupiniquim dos maiores ilusionistas de las Vegas. A comida ia desaparecendo numa velocidade inacreditável. Num piscar de olhos a abdução acontecia. No maior espírito colaborativo, entrei no esquema e ia sutilmente posicionando os pratos cheios perto dela, para facilitar as manobras. Peguei mais guardanapos na mesa vizinha para ela embrulhar a comida.

Nesse ponto, ela foi contagiada pela minha crise histérica de riso. A gente dava gargalhadas enquanto a comida era sugada pela bolsa dela. Comecei a ter ideias diabólicas como fazer paredinha pro garçom não ver ou roubar logo os pratos pra acabar com o nosso sofrimento. Também lembrei que ela ia ter que pegar a carteira dentro da bolsa e os sashimis iam pular lá de dentro e nos denunciar.

Lá pelas tantas, o gerente se aproximou e disse que não precisaríamos pagar pelas sobras. Sei lá por que. Talvez nosso comportamento estranho tenha chamado sua atenção, ou ele queria que desocupássemos a mesa, ou ficou com vergonha por causa dos outros clientes. Não importa. Nos safamos dessa com a dignidade mais ou menos intacta.

Saldo do almoço: a bolsa da Roberta fedia a peixe, meu carro ficou fedendo também e estávamos felizes.